Levanto na marra. Não vivo de brisa. Gosto de sentir o pó na cerâmica quando piso descalço no chão. A cozinha é imunda de nascença. Procuro alguma fruta orfã na geladeira. De uma laranja murcha faço um suco que me surpreende sempre. Asso dois ovos e como com pão. Ouvindo ao longe o rádio e o vendedor de guarda-chuva que vai acordando os meus vizinhos:
"Sim, minha senhora, acorda. Tá na hora", deve dizer quando dobra a esquina.
Pelo pedaço de céu que posso ver pela janela, parece que não vai ter chuva, a moça da televisão confirma esta constatação. Mas sei que posso fazer chover à vontade lá no banheiro para onde sigo, depois de colocar o copo vazio por cima de outras tralhas em algum canto da pia.
Os pingos nada morosos da ducha fazem som de frigideira quando tocam nos azulejos. Eu me meto nessa brincadeira e trato de me tornar bem lavado.
Estar todo limpo é só um intento, tanto que quando entro no meio da chuva de gotas, me lavar se torna um mero motivo para que minha mente se solte do instante e me leve a um futuro que ainda não construí.
Não há tempo pra tudo, mas pronto: estou limpo; e com o rascunho das próximas horas na cabeça.
Passar a roupa é uma terapia. Por isso que mando que passem. A moça deixa toda quarta-feira a roupa lavada e dobradinha. Escolho a calça azul e a camisa branca de listras azul e bege. Sei, como a moça disse, vai dá calor, mas gosto dessa camisa.
É quinta-feira. Amanhã é o último dia para depositar o dinheiro de Glória. É um milagre que ela não mandou nenhuma mensagem cobrando a pensão do meu filho que ela engole; ela e o seu guarda municipal.
Quando aperto o último botão da camisa, me apertam as tripas e corro para a privada. Isso é assunto privado, mas confesso, sofro de prisão de ventre e se o intestino manda recado, tenho que sair correndo. Bem que dizem que suco de laranja murcha é bom para soltar.
Abro a revista Exame, e ponho a ter sonho de se fosse rico; e a mensagem de Glória chega, e me lembra que minha nenhuma fortuna é abocanhada por ela e seu guarda municipal. Deu vontade de falar com Vinicius. Hoje de tarde ligo, se der deixo em espécie o dinheiro para aquela cobra e dou um cheiro no meu filho.
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