quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

"Ainda bem que moro no terceiro andar, daqui não morro se pular"

"hoje o dia tá mais quente"

"Uma mulher sem secador, é uma sem alma".

"Nem sempre tenho o cartão, o crédito que preservo na palavra", trecho de Luz Rubra.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Quando abro os olhos tanto faz para onde minha visão está direcionada, a luz do sol percorre milhões de léguas para ferir minhas retinas. É manhã. Se esse é o sentido da vida, que seja. Tenho contas pra pagar, e um milheiro de pecados pra apagar da memória.

É dia, é fato. A luz embranquecida rasga as frestas da janela. Setas famigeradas. Acorda Jorge, acorda. Batem as portas dos meus olhos. As pálpebras resistem, são fortes casamatas. Mas tem uma hora que, exaustas, descortinam e a luz do sol me abraça.

"Essa vida só tem um sentido, pra frente, meu filho. Tem que correr porque o tempo esmaga", era o que dizia meu pai, que tinha fama de compositor.

O rádio liga sozinho, hoje despertei antes. Imagino que tocam a música do meu pai, um samba cadenciado que abençoa os mal despertados como eu. Cantam sem a pressa, sem instrumento algum. Fico à deriva assim, até que um vendedor de guarda-chuvas grita do lado de fora:

"Guarda-chuva, guarda-chuva de todo tipo. Guarda-chuva preto, guarda-chuva de flor. Guarda-chuva que guarda o sol". Bem que poderia ser o refrão de uma música de meu pai.

A música que imagino tocar na rádio finalmente acaba. Também esgota o meu prazo para ficar deitado. O tempo espreme, espreme e não tem dó de fazer um suco de quem fica cochilando embaixo dos lençóis.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Levanto na marra. Não vivo de brisa. Gosto de sentir o pó na cerâmica quando piso descalço no chão. A cozinha é imunda de nascença. Procuro alguma fruta orfã na geladeira. De uma laranja murcha faço um suco que me surpreende sempre. Asso dois ovos e como com pão. Ouvindo ao longe o rádio e o vendedor de guarda-chuva que vai acordando os meus vizinhos:

"Sim, minha senhora, acorda. Tá na hora", deve dizer quando dobra a esquina.

Pelo pedaço de céu que posso ver pela janela, parece que não vai ter chuva, a moça da televisão confirma esta constatação. Mas sei que posso fazer chover à vontade lá no banheiro para onde sigo, depois de colocar o copo vazio por cima de outras tralhas em algum canto da pia.

Os pingos nada morosos da ducha fazem som de frigideira quando tocam nos azulejos. Eu me meto nessa brincadeira e trato de me tornar bem lavado.

Estar todo limpo é só um intento, tanto que quando entro no meio da chuva de gotas, me lavar se torna um mero motivo para que minha mente se solte do instante e me leve a um futuro que ainda não construí.

Não há tempo pra tudo, mas pronto: estou limpo; e com o rascunho das próximas horas na cabeça.

Passar a roupa é uma terapia. Por isso que mando que passem. A moça deixa toda quarta-feira a roupa lavada e dobradinha. Escolho a calça azul e a camisa branca de listras azul e bege. Sei, como a moça disse, vai dá calor, mas gosto dessa camisa.

É quinta-feira. Amanhã é o último dia para depositar o dinheiro de Glória. É um milagre que ela não mandou nenhuma mensagem cobrando a pensão do meu filho que ela engole; ela e o seu guarda municipal.

Quando aperto o último botão da camisa, me apertam as tripas e corro para a privada. Isso é assunto privado, mas confesso, sofro de prisão de ventre e se o intestino manda recado, tenho que sair correndo. Bem que dizem que suco de laranja murcha é bom para soltar.

Abro a revista Exame, e ponho a ter sonho de se fosse rico; e a mensagem de Glória chega, e me lembra que minha nenhuma fortuna é abocanhada por ela e seu guarda municipal. Deu vontade de falar com Vinicius. Hoje de tarde ligo, se der deixo em espécie o dinheiro para aquela cobra e dou um cheiro no meu filho.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Era bom que todas as prisões fossem de ventre. Era bom que todas as prisões de ventre fossem como a minha: não tem hora certa pra chegar a carta de alforria, mas quando ela chega posso relaxar na privada e pouco sofrer, relaxo e gozo. Gozo parecido deve ter aquele cara que passou mais de mil dias encarcerado.

Que bom seria se a minha pena com minha ex-mulher fosse como minha prisão de ventre.

Pronto! Desta prisão, a de ventre, pelo menos estou livre. Das outras, vou vendo.

Tomo outro banho, este menos filosófico e mais fisiológico. Culpa de minha mãe, que dizia: "uma vez cagado, sempre cagado, até banho tomado". Também desta prisão, minha mãe, estou até um dia desses, condenado.

Lá vai uma linha nova agenda.

Supermercado: sabonete, papel higiênico, refil pra o Prestorbarba, leite desnatado...

O dia está cheio e até as dez, quando os bancos abrem, sou o homem preparativos, desde quando resolvi viver de agiotagem.

A música no rádio tenta contaminar o meu pensamento com rimas, como se esse meu dia já não fosse rimado. É dia dez, tenho que tomar com juros o dinheiro que dei mês passado, sim, o que retiro com juros é a rima do que foi emprestado.